Saul Bellow por Martin Amis

Folha de S. Paulo (15/02/2004) + literatura

Por Martin Amis

CELEBRAÇÃO DAS VIRTUDES TRANSFORMADORAS DA PAIXÃO FAZ DE SAUL BELLOW UM DOS DOIS PRINCIPAIS ESCRITORES NORTE-AMERICANOS, SÓ COMPARÁVEL A HENRY JAMES

Amor, sublime amor

Divulgação
O contista e romancista Saul Bellow (1915), que ganhou o Nobel de Literatura em 1976

Ao passo que a poesia inglesa “não pede licença a ninguém”, afirmou E.M. Forster em 1927, a ficção inglesa “é menos triunfante”: havia o problema dos franceses e dos russos. Forster publicou seu último romance, “Passagem para a Índia”, em 1924, mas viveu até 1970 -tempo suficiente para testemunhar uma profunda alteração no equilíbrio de poderes. A ficção russa, tão loucamente robusta nos primeiros anos do século 20 (Bulgákov, Zamiátin, Biéli, Búnin), fora varrida da face da terra; a ficção francesa parecia haver-se extraviado por periferias filosóficas e ensaísticas; e a ficção inglesa (que ainda aguardava a infusão crucial dos “coloniais”) parecia, bem, parecia incuravelmente inglesa, isto é, incuravelmente inerte e paroquiana. Nesse meio tempo, como em obediência às realidades políticas, a ficção norte-americana assumia seu destino manifesto. O romance americano, agora dominante, era por sua vez dominado pelo romance judaico-americano, e todo mundo sabe quem o dominava: Saul Bellow. Sua primazia repousava e repousa não sobre vendagens e títulos honoríficos, rosetas e faixas, mas sobre uma incontestável legitimidade. Dizer o contrário é perda de tempo. Bellow vê mais do que vemos -vê, ouve, cheira, prova e toca.

Pela metade
Comparados a ele, nós todos só sentimos pela metade; e, também em termos intelectuais, suas frases simplesmente pesam mais do que as de quem quer que seja. John Updike e Philip Roth, provavelmente os dois autores em melhor posição para rivalizar com Bellow ou suceder a ele, já reconheceram que sua primazia não é mera questão de anos corridos. A egolatria é um dos ingredientes e também um dos fardos do talento literário -e um dos mais pesados; o devaneio ególatra não é, como se supõe, um estupor de auto-satisfação; é, antes, um estado de alerta vermelho. Contudo os escritores são surpreendentemente realistas quanto a hierarquias. John Berryman dizia-se “à vontade” como segundo violino de Robert Lowell; e, quando a velha nau capitânea Robert Frost foi a pique, em 1963, ele disse impulsivamente (e sem muito sentimentalismo): “É de dar medo. Quem é o número 1?”. Mas foi apenas um ímpeto. Berryman sabia o seu lugar. Com bastante impertinência, poderíamos resumir as preocupações dos romancistas judeu-americanos em uma palavra: “shiksas” (literalmente, “coisas detestáveis”). Ocorre que havia algo de unicamente fascinante no conflito entre a sensibilidade judaica e as tentações -inevitáveis- da América do Norte materialista. Ou, como diz Bellow: “Dentro de casa, o regime arcaico; fora, a tal da vida”. O regime arcaico é sombrio, ditado pelo sangue e torturado pela culpa, ascético e transcendental; a tal da vida é suja, atomizada e desprovida de reflexão. É claro que o romance judaico-americano incorpora a experiência do imigrante que deixou a “velha pátria” para trás; e a ênfase recai sobre a angústia da incorporação (forte em Roth e em Malamud também). Não se trata da angústia de ter sucesso, de subir na vida, mas sim da angústia quanto ao direito de se pronunciar, de julgar -o direito de escrever. Como conseqüência, esses romancistas trouxeram uma intensidade nova ao empenho autoral, entregando-se por inteiro, sem rota de recuo.

“Erros nobres”
Muito embora a ficção judaico-americana seja muitas vezes cômica e deflacionária, ocupada com aquilo que “Herzog” (1964) chamava de “erros nobres”, há algo de historicamente lúgubre por trás dela -um assomo de brutalidade humana. As dimensões dessa brutalidade ainda não eram palpáveis em 1944, o ano que viu o início da epopéia em série de Bellow. E os Estados Unidos seriam em seguida vistos como uma “terra de reparação histórica”, um lugar em que (como escreveu Bellow, com fria simplicidade) “os judeus não podiam ser exterminados”.
Em termos gerais, o romance judaico-americano propõe um dilema insolúvel entre o corpo e a mente e então tenta resolvê-lo ao longo de suas páginas. “Quando um pensamento novo apertava seu coração, ele ia até a cozinha, seu quartel-general, para anotá-lo”, escreve Bellow em uma página de “Herzog”. “Quando um pensamento novo apertava seu coração”: a voz não se destaca, ela reage ao mundo com intensa sensualidade, num pico de ruminação mental igualmente prodigiosa e tenaz.
Bellow pôde dispor de uma eflorescência que certamente deve muito a circunstâncias históricas, e só nos resta concluir, em tom de elegia, que essa fase está por concluir. Não há sucedâneos à vista. Terá sido obra da “assimilação” ou será que o processo foi mais flácido e difuso? “Até mesmo a sua história se tornou uma das suas opções”, observa secamente o narrador de “A Conexão Bellarosa” (1989). “Ter ou não ter uma história era uma “questão” inteiramente a seu discrímen.” Lembrando o famoso ensaio que Philip Rahv publicou em 1939, digamos que os “Caras-Pálidas” levaram a melhor sobre os “Peles-Vermelhas”. Roth manterá a tradição, por algum tempo ainda. Mas ele é o nosso Chingachgook -o último dos moicanos.
Louvor e vitupério têm lá seu lugar no controle de qualidade do jornalismo literário, mas a irracionalidade fundamental do juízo de valor se torna flagrante quando aplicada ao passado. A prática de rearranjar o cânone por motivos estéticos ou morais (hoje em dia, estes seriam políticos, isto é, igualitários) foi inapelavelmente ridicularizada por Northrop Frye em “Anatomia da Crítica” (1957): imaginar uma bolsa de valores literários, na qual as reputações “sobem e descem”, significa reduzir a crítica literária a “fofoca para a classe ociosa”.
Podemos nos esforçar e caprichar nos argumentos, mas não podemos demonstrar que Milton é melhor poeta que Macaulay ou nem sequer que Milton é melhor poeta que McGonagall. A coisa é óbvia e evidente, mas não há como prová-la. Ainda assim, gostaria de fazer uma previsão bem-comportada sobre a fortuna literária, e venho por meio desta alardear que Saul Bellow há de emergir como o supremo romancista americano. Não que haja carestia de talento narrativo, que tende, como Bellow tende, para o visionário -uma qualidade indispensável à interpretação de um Novo Mundo. Mas, quando atentamos para a superfície verbal, para o instrumento, para a prosa, Bellow é “sui generis”. O que deveríamos temer? Os formulários dramáticos de Hawthorne? A momice extravagante de Melville? A ameaça sombria e intermitente de Faulkner? Não. O único americano que dá trabalho a Bellow é Henry James.


Bellow sempre sentiu que Nabokov perdia força artística por sua postura patrícia

Todos os escritores contraem núpcias inconscientes com seus leitores; desse ponto de vista, a ficção de James percorre um arco peculiar: corte, lua-de-mel, coabitação vigorosa, seguida de indiferença e alheamento crescentes; camas separadas e, por fim, quartos separados. Como em qualquer casamento, a relação se mede pelo teor do convívio cotidiano -pelo teor de sua linguagem. E mesmo em seus momentos mais serenos e sedutores (a delicadeza andrógina, o olhar maravilhosamente distante), a prosa de James sofre de uma falha comportamental aguda. Os estudiosos da língua identificaram o hábito como “variação elegante”.

Pseudo-elegância
É claro que se trata de uma ironia, uma vez que a elegância a que se aspira não é mais que pseudo-elegância, antielegância. Por exemplo: “Ela seguiu à esquerda, rumo à ponte Vecchio, e se deteve diante de um dos hotéis que dão para aquela adorável edificação”. Haveria uma outra variação para “ponte Vecchio”: que tal o mero pronome “ela”? Do mesmo modo, o “desjejum”, mais adiante, torna-se um “repasto”, e o “bule” transforma-se em “recipiente”; “Lord Warburton” torna-se “aquele nobre” ou ainda “o senhor de Lockleigh”; “cartas” transformam-se em “epístolas”; “braços”, em “membros”, e assim por diante. Além de fazer o leitor estrebuchar três vezes por frase, as variações de James são índice de outras deficiências: fidalguia, melindre e uma certa falta de calor, de franqueza e de compromisso. Todos os exemplos citados provêm de “Retrato de uma Senhora” (1881), escrito em seu generoso período intermediário. Quando penetramos o labirinto ártico que atende por James maduro, o distanciamento diante do leitor, o gosto pela introversão, é tão pronunciado quanto em Joyce e mais diabolicamente prolongado. O casamento-fantasma com o leitor é a base do equilíbrio criativo do romancista. Uma relação assim precisa ser inconsciente, silenciosa, tácita; e, naturalmente, ela precisa ser moldada pelo amor. O amor de Saul Bellow pelo leitor sempre foi subliminar, vibrante e ardoroso, na proporção certa. Ele se combina a uma outra espécie de amor para produzir o que talvez seja a singularidade de Bellow. Relendo um conto da maturidade, “À Margem do São Lourenço”, vi que eu havia sublinhado e anotado uma passagem: “Então é assim?” O trecho é o seguinte: “Ela não era uma mulher para amar, mas o garoto a amava e ela sabia bem disso. Ele os amava todos. Amava até Albert. Quando ia a Lachine, ele dividia a cama com Albert, e de manhã ele às vezes passava a mão pelos cabelos dele, e não deixava de amá-lo nem sequer quando Albert afastava com força a sua mão. Os cabelos cresciam em feixes cerrados, um ao lado do outro. Essas observações, Rexler viria a saber, constituíam toda a sua vida -o seu ser-, e era o amor que as produzia. Para cada traço físico havia um sentimento correspondente. Unidos assim, em pares, eles iam e vinham, para dentro e para fora de sua alma.”

Nabokov
Pois assim é. Entre outras razões, celebra-se o amor por suas virtudes transformadoras; e é com amor, em consonância com sua necessidade imperiosa de comemorar e preservar (“Sou o vingador dos candidatos ao esquecimento”), que Bellow transforma o mundo: “Napoleon Street, podre, minúscula, suja e desvairada, esburacada, açoitada pelo mau tempo -os filhos do contrabandista de bebida recitando orações antigas. A essas coisas o coração de Moses estava ligado com firmeza. Havia ali uma gama de sentimentos humanos muito mais ampla do que ele jamais vira. Os filhos da raça, por um milagre infalível, abriam os olhos para um mundo estranho atrás do outro, era após era, e pronunciavam a mesma oração em todos eles, amando sofregamente o que encontravam. O que podia haver de errado em Napoleon Street?, pensou Herzog. Tudo o que ele queria estava ali.” “Sou americano, de Chicago”, diz Augie March, logo de saída. Bem poderia ter sido: “Sou russo, nascido no Québec, e me mudei para Chicago aos 9 anos de idade”. E Bellow é russo, um Tolstói por sua pureza e amplitude. O que nos conduz a um outro fantasma de São Petersburgo: Vladimir Nabokov. Admirador sincero de “Pnin” e “Lolita”, Bellow sempre sentiu que Nabokov perdia força artística por sua postura patrícia (a falha jamesiana), a mesma que nos distancia de “Ada”, sua obra máxima, em que o vínculo com o leitor simplesmente desaparece. Nabokov não era um imigrante (“pare de dar uma de maldito imigrante”, diz o irmão mais velho de Herzog no funeral de seu pai); Nabokov foi sempre um “émigré”. Não tinha como se tornar americano: estava apenas fazendo uma “tour” pelos cortiços (aliás, com grande deleite). Quando criança, e para sua enorme vantagem, Bellow pôde ver como um cortiço abriga a maior gama possível de sentimentos humanos e ao mesmo tempo dirige a vista para cima, para o transcendente.

Palavras exclusivas
Alguns anos atrás, tive uma conversa curiosa com um romancista prolífico que acabara de reler “As Aventuras de Augie March”. Falávamos do livro até que ele disse, pensando que estava trocando de assunto: “Fui hoje para o meu escritório e não consegui nada. Nem uma frase, nem uma palavra. Pensei: “Estou vazio'”. Respondi: “Fique tranqüilo, a culpa não é sua, foi “Augie March'”.
Pois a mesma coisa acontecera comigo. É o tipo de coisa que Bellow pode causar com a sua prosa fluida e ardente: parece que todas as frases, todas as palavras pertencem exclusivamente a ele. Ao mesmo tempo em que podemos compartilhar o entusiasmo utópico de Augie quando, no México, por volta de 1940, reduzido a quase nada, ele vê de relance ninguém menos que Leon Trótski:
“Acho que o que mexeu comigo foi a impressão instantânea de que ele traçava seu rumo pelas grandes estrelas, pelas razões mais altas, e era capaz de falar as palavras humanas mais importantes e os termos mais universais. Quando você está reduzido, como eu estava, a uma navegação bem diferente dessa outra, grandiosa e estelar, quando você está só chapinhando na água rasa, catando mariscos, é bom ver de relance os prodígios das profundezas. Mais até do que uma grandeza exilada e bem posta, porque para mim o exílio era sinal de uma persistência nas coisas mais importantes.”


Martin Amis é escritor inglês e autor de “Água Pesada” e “A Informação” (ambos pela Companhia das Letras), entre outros. Este texto foi publicado originalmente na revista “The Atlantic Monthly”.
Tradução de Samuel Titan Jr.

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